Crédito rural: o que seria uma grande solução transformou-se numa grande decepção

Polan Lacki

 

"Não podemos resolver os problemas com os mesmos modelos de pensamentos que nos conduziram a eles". "Não podemos pretender que as coisas mudem se continuamos fazendo sempre a mesma coisa" - Albert Einstein

 

No Brasil, mais uma vez, os produtores rurais estão enfrentando uma grave crise de endividamento e insolvência econômica. E como de costume, os "conselheiros" que sugerem medidas para solucioná-la estão propondo que os agricultores continuem "com o pires na mão", mendigando aos governos créditos, subsídios e outras efêmeras ajudas paternalistas. Com evidente falta de criatividade continuam insistindo nos mesmos refinanciamentos das dívidas dos agricultores; e o que é ainda mais contraditório, com o claro objetivo de torná-los, novamente, sujeitos de créditos para que possam endividar-se uma vez mais e cada vez mais. 

 

Nenhum inimigo é pior que um mau conselho – Sófocles

 

Ao formular recomendações tão carentes de originalidade parece que os referidos conselheiros não aprenderam absolutamente nada com a recente crise econômica mundial, que foi provocada exatamente pela excessiva e imprudente, para não dizer irresponsável, concessão y utilização de créditos. Quando o mais lógico seria advertir aos governos e aos agricultores que, se o crédito rural fosse tão eficaz na solução dos seus problemas, não teríamos tantos produtores rurais tão fortemente endividados. Esses conselheiros continuam recomendando paliativos emergenciais que apenas suavizam momentaneamente os sintomas (ou efeitos) da crise, em vez de eliminar as causas mais profundas que, ano após ano, estão originando-a e alimentando-a de maneira cumulativa; paliativos que perenizam a dependência que os agricultores têm do Estado, em vez de propor medidas inovadoras que os emancipem, de uma vez por todas, de tão crônica e ineficaz dependência.

 

As verdades que devem ser ditas aos agricultores e aos educadores rurais

 

É necessário dizer e demonstrar aos produtores rurais que, como regra geral:

- as principais causas dos seus problemas econômicos são as ineficiências, tecnológico-produtivas, gerenciais e/ou comerciais, que os próprios agricultores estão cometendo;

- entre outros motivos, eles no têm rentabilidade porque estão adotando vários procedimentos equivocados (evitáveis ou elimináveis) que incrementam desnecessariamente os seus custos de produção e reduzem desnecessariamente os preços de venda das suas colheitas; sem perceber que, para ter rentabilidade, poderiam e deveriam concentrar os seus esforços em fazer exatamente o contrário;

- estão cometendo essas ineficiências não necessariamente por falta de decisões políticas, créditos abundantes nem subsídios; tampouco por culpa do FMI, do Banco Mundial, da globalização ou do neoliberalismo. Estão cometendo-as porque o nosso sistema de educação rural no está cumprindo com a sua função de proporcionar aos agricultores os conhecimentos que eles mais necessitam: agronômicos, zootécnicos  veterinários, nem os relacionados com a administração rural, incluindo formas associativas para corrigir as profundas distorções que ocorrem na realização dos seus investimentos, na aquisição de insumos e na comercialização das colheitas.

 

Esta relação causa/efeito, entre insuficiência de conhecimentos e fracasso econômico dos agricultores, apesar de óbvia continua sendo subestimada e até ignorada pelos mencionados conselheiros. Aparentemente eles ainda não se deram conta que, no mundo globalizado, os conhecimentos passaram a ser os fatores más determinantes para que os produtores rurais possam tornar-se e manter-se competitivos.

 

Conselhos equivocados estão induzindo os agricultores a um grave erro

 

Os produtores rurais, mal orientados pelos mencionados conselheiros, continuam procurando pseudo-soluções nas instituições inadequadas, que não têm a atribuição nem a idoneidade técnica para solucionar os seus problemas através da eficiência e do profissionalismo. Para confirmá-lo basta observar que os agricultores continuam mendigando ajudas aos burocratas e economistas do Banco do Brasil, do Banco Central, do Ministério de Fazenda ou aos deputados e senadores do Congresso Nacional. Em vez de exigir soluções de verdade nas instituições que têm a atribuição legal,e que deveriam ter a capacidade técnico-operativa, para proporcionar-lhes os conhecimentos da ciência, da tecnologia, do empreendedorismo e do cooperativismo. Conhecimentos, não necessariamente complexos nem sofisticados, através dos quais eles mesmos possam substituir a humilhação da dependência pela dignidade da emancipação.

 

"O ideal não consiste em fazer coisas extraordinárias e sim fazer coisas ordinárias extraordinariamente bem executadas” – São Vicente de Paula

 

O diagnóstico até aqui descrito recomenda que os agricultores mudem, urgente e radicalmente, as suas atitudes e as suas pautas de reivindicações. Em vez de continuar acreditando nas demagógicas "macro-decisões políticas de apoio aos agricultores", assumam a seguinte posição: em forma pacífica porém categórica reivindiquem que as instituições abaixo mencionadas adotem medidas muito simples mas que sejam "extraordinariamente bem executadas":

 

1) Nas faculdades de ciências agrárias para exigir:

- Que elas se "desurbanizem" e se "ruralizem" com o claro objetivo de que, professores e estudantes, tenham maior vivência e convivência com a realidade agrícola e rural, de modo que a formação dos futuros profissionais seja mais contextualizada, realista e pragmática; y desta forma responda às reais necessidades dos empregadores e dos agricultores;

- Que ensinem aos estudantes a corrigir as ineficiências e a solucionar os problemas dos agricultores, praticando nas propriedades, comunidades e mercados rurais; e não apenas teorizando nos laboratórios, nas salas de aula e na simulação dos computadores;

- Que ofereçam um ensino que, além de proporcionar uma sólida formação técnica, enfatize o desenvolvimento das habilidades e aptidões dos estudantes para que aprendam a executar de maneira correta e eficiente as práticas agrícolas. O desenvolvimento de tais habilidades e aptidões requer que as faculdades priorizem o "método de ensinar e aprender fazendo"; e que o façam diretamente no campo;

- Que os professores fortaleçam a conscientização e a convicção dos futuros profissionais no seguinte sentido: que na atualidade, muito mais que no passado, uma agricultura rentável e competitiva tem que estar fundamentada na correta formulação e aplicação de soluções baseadas em conhecimentos agronômicos, zootécnicos, veterinários e de administração rural. E que, por esta razão, a intervenção destes profissionais na solução dos problemas da agricultura é atualmente muito mais importante e decisiva. Muito mais que a intervenção dos políticos, dos economistas y dos agentes de crédito; os quais durante muitos anos atuaram como "amortecedores" das dificuldades econômicas dos produtores rurais. Diante desta nova realidade, as faculdades devem formar egressos tecnicamente mais auto-suficientes e mais “autoconfiantes”, para que possam desempenhar-se como os mais importantes e eficazes "solucionadores" dos problemas da agricultura nacional. Os professores devem contribuir a levantar o ego e a auto-estima dos futuros profissionais de modo que eles queiram, saibam e possam assumir um maior protagonismo e liderança na solução dos problemas agrícolas y rurais.

 

2) Nas faculdades de educação ou pedagogia. Para reivindicar que os seus estudantes tenham a oportunidade e a obrigação de vivenciar os verdadeiros problemas econômicos e sociais que ocorrem na vida cotidiana das famílias e comunidades rurais; e que, como conseqüência da referida vivencia, ao egressar das faculdades saibam como adaptar os conteúdos curriculares e os métodos pedagógicos das escolas fundamentais rurais às principais necessidades de vida e de trabalho imperantes no campo. Que ensinem aos futuros professores rurais conteúdos que verdadeiramente sejam úteis e aplicáveis na melhoria do seu desempenho como educadores; e não tanto a teorizar sobre as teorias (a redundância é intencional) filosóficas, sociológicas, antropológicas e políticas da educação. Porque estes conteúdos tão abstratos e impregnados de um forte componente político-ideológico contribuem a desviar as faculdades de educação do seu principal objetivo que é o de formar professores competentes. Em muitas dessas faculdades, sob o atraente adorno de "formar cidadãos críticos e conscientes" estão formando ativistas políticos; que estão mais preocupados em estimular greves e reivindicar supostos direitos que em cumprir com seus deveres como educadores eficientes. Pragmaticamente as faculdades devem priorizar e enfatizar a formação de professores que egressem sabendo, concreta e objetivamente, como devem desempenhar-se na sala de aula, como devem envolver os pais e a comunidade no esforço educativo, o que devem ensinar e como devem fazê-lo para desenvolver as potencialidades latentes e fortalecer as capacidades das crianças e jovens rurais; com o propósito de que depois de adultos sejam eles mesmos, e não o retórico paternalismo estatal, os "solucionadores" dos problemas existentes nos seus lares, propriedades e comunidades rurais.

 

3) Nos serviços de assistência técnica e extensão rural (SATER). Para exigir que os extensionistas tenham real capacidade de tornar os produtores rurais muito mais eficientes nos aspectos produtivos, gerenciais e comerciais. Extensionistas que saibam fazê-lo por mais adversas que sejam as condições físico-produtivas e por mais escassos que sejam os recursos financeiros dos agricultores; e por mais inoperantes que sejam os seus respectivos governos. Neste sentido os agricultores devem exigir como mínimo:

Em primeiro lugar, que os agentes de extensão saibam aplicar principalmente aquelas soluções que, graças ao seu baixo custo e facilidade de adoção, estejam ao alcance dos agricultores mais pobres. A propósito, muitas das mencionadas soluções estão descritas no livro publicado pela FAO-ONU, denominado "Desenvolvimento agropecuário: da dependência ao protagonismo do agricultor", que está disponível, em forma gratuita, no site http://www.polanlacki.com.br/agrobr

Em segundo lugar que os extensionistas permaneçam nas propriedades e comunidades rurais, capacitando e organizando os agricultores; porque na atualidade muitos agentes de extensão permanecem nos escritórios urbanos e metropolitanos, redigindo relatórios irrelevantes ou preenchendo formulários e adotando procedimentos burocráticos para obter créditos e outras ajudas paternalistas. Este desvirtuamento das suas funções é inaceitável pois os extensionistas são educadores e não burocratas, nem "empregados" dos agentes financeiros.

 

4) Nas escolas fundamentais rurais. Para a maioria dos habitantes do campo estas escolas são o único serviço que os governos lhes proporcionam. Por esta razão os habitantes rurais devem exigir que esta singular oportunidade seja aproveitada para proporcionar aos educandos conhecimentos realmente úteis para a vida rural e para "eficientizar" a produção agropecuária e com isto incrementar a renda familiar. Deverão reivindicar que tais escolas sejam rurais de verdade e não apenas no nome; exigir que seus currículos sejam "ruralizados" e "agriculturalizados". Que incluam nos seus programas de estudos aqueles conteúdos reconhecidamente utilizáveis pelos educandos na correção ou eliminação dos erros e ineficiências que os habitantes rurais estão cometendo, com maior freqüência, na vida pessoal, familiar, produtiva e comunitária, como por exemplo:

- tecnologias elementares que lhes permitam realizar uma agricultura mais produtiva, mais diversificada e mais eficiente; implantação de hortas familiares para que saibam produzir abundantes hortaliças, frutas e plantas medicinais; processamento/transformação inicial de produtos agrícolas e pecuários para incorporar-lhes valor e evitar perdas pós-colheita, melhoramento da nutrição baseada na auto-produção diversificada dos alimentos, noções de profilaxia, higiene e prevenção de enfermidades e pragas humanas e animais, primeiros auxílios e prevenção contra acidentes que ocorrem com maior freqüência no meio rural, cooperativismo e organização comunitária, administração rural e comercialização com menor incidência de intermediários, etc.

- valores e princípios éticos para que os alunos adquiram e adotem hábitos e condutas essenciais para uma vida digna, harmoniosa e solidária; valores e princípios que estão sendo "esquecidos" pelo individualismo, egoísmo e violência das pessoas que desejam usufruir supostos direitos sem cumprir os seus deveres. Valores princípios tais como: honestidade, honradez, dignidade, responsabilidade, disciplina, pontualidade, cumprimento dos compromissos assumidos com terceiros, respeito ao próximo e aos seus direitos, consciência das suas obrigações como cidadãos, como pais de família e como membros da comunidade, amor ao trabalho bem executado, ambição sadia para progredir na vida como conseqüência do seu próprio esforço e do seu desejo de superação, altruísmo e solidariedade; advertência sobre os perigos das drogas, do alcoolismo, dos jogos de azar, das relações sexuais prematuras e imprudentes, da delinqüência, etc.

 

Se os educadores fizerem o que podem fazer os agricultores saberão o que devem fazer

 

Nos textos disponíveis em um outro site do autor (http://www.polanlacki.com.br) se argumenta que as principais debilidades e ineficiências das instituições educativas, mencionadas nos itens 1, 3 e 4 são evitáveis ou corrigíveis, através de medidas que podem ser adotadas pelos próprios professores e extensionistas que nelas se desempenham. Porque a sua adoção não necessariamente requer de recursos adicionais aos que tais instituições já dispõem, nem de decisões políticas das altas esferas do ministério ou das secretarias estaduais de educação e agricultura. Muitas das ineficiências do mencionado sistema persistem não necessariamente porque não podem ser eliminadas; e sim porque os educadores ainda não tomaram a decisão de assumir como sua a tarefa e a iniciativa de enfrentar a passividade, o fatalismo e conformismo, o anacronismo e a inércia imperantes no referido sistema.

 

Uma conclusão em forma de auto-crítica. Nós os educadores não podemos continuar com a cômoda atitude de apresentar-nos perante a opinião pública como vítimas dos baixos salários e da falta de apoio dos governos a educação; embora em muitos casos ambos sejam uma realidade. Muito mais vítimas que nós, são os habitantes rurais os quais, ao receberem una educação de baixa qualidade e com conteúdos inadequados às suas necessidades, estão sendo condenados a fracassar no trabalho e na vida pessoal, familiar, produtiva e comunitária. Nós os educadores devemos ter a humildade de reconhecer que, em boa medida, nós mesmos podemos e devemos corrigir ou eliminar muitas das debilidades e ineficiências existentes no sistema de educação rural; independentemente do que façam ou deixem de fazer as altas autoridades educativas. Críticas ao artigo serão bem-vindas através dos e-mails:

Polan.Lacki@onda.com.br e Polan.Lacki@uol.com.br