Uma mensagem de esperança aos pequenos agricultores: a rentabilidade já está ao alcance de todos

 

Não somos ricos pelas coisas que possuímos, mas pelo que podemos realizar sem possuí-las.” (Immanuel Kant - filósofo alemão)

 

O ideal não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas sim em fazer coisas ordinárias extraordinariamente bem feitas.” (São Vicente de Paulo)

 

Inicio esta mensagem afirmando que é muito pouco ou quase nada o que os pequenos agricultores brasileiros podem esperar dos seus governos. Esta asseveração é consequência da clara e reiterada constatação da ineficácia das políticas públicas em prol do desenvolvimento rural. Assim o tem demonstrado, durante mais de cinco décadas, os fracassos dos seus, muitos e muito dispendiosos, programas assistencialistas que não foram capazes de reduzir e muito menos de erradicar a pobreza rural. Em virtude desta ineficácia lhes proponho, concreta e objetivamente, que não continuem perdendo mais tempo com pseudo-soluções que os mantêm eternamente dependentes do humilhante paternalismo governamental. Com tal fim lhes sugiro que comecem, agora mesmo, a construir um desenvolvimento mais endógeno e mais auto-dependente que os emancipará das efêmeras e excludentes ajudas governamentais.

 

Será muito mais construtivo que o tempo que dedicavam àquelas utopias paternalistas, a partir de agora, o utilizem a:

- assessorar-se com um bom extensionista que lhes oriente a ser mais eficientes;

- visitar os produtores rurais economicamente bem sucedidos da sua comunidade;

- participar de eventos de difusão de tecnologias;

- estudar textos que recomendam como ser mais eficientes na produção, na administração da propriedade e na comercialização agrícola;

- aumentar a quantidade e melhorar a qualidade da produção;

- reduzir os custos por kg produzido;

- incorporar valor às colheitas;

- comprar insumos e vender o que produzem com menor intermediação.

 

E, como consequência da correta adoção destas medidas "eficientizadoras", simplesmente emancipar-se das retóricas "ajudas" governamentais. Observem que atualmente, graças à Internet, vocês têm à sua disposição, de forma quase gratuita, os melhores agrônomos e veterinários, dentro dos computadores instalados nos seus sindicatos e, de forma crescente, até nas suas residências. Se vocês desejarem analisar a conveniência de trilhar este novo caminho (da esperança, do resgate da dignidade e da auto-estima) sugiro que iniciem este processo de emancipação adotando de forma gradual as medidas descritas a seguir.

 

1) Para chegar ao desejável é necessário partir do possível. Quem conhece, de forma vivencial, as extraordinárias potencialidades produtivas da nossa agricultura, sabe que para ter êxito econômico nesta atividade, nem sempre (e não necessariamente) se requer de altas decisões políticas, créditos abundantes, grandes extensões de terra, investimentos em maquinaria de alto custo, nem de tecnologias sofisticadas. Muitíssimo mais importante e eficaz que o anteriormente mencionado é evitar, corrigir e/ou eliminar as ineficiências que, sem dar-se conta, a maioria dos agricultores ainda está cometendo na forma como produz, como administra suas propriedades e como comercializa suas colheitas. Evitar, corrigir ou eliminar estas ineficiências custa muito pouco, mas tem uma surpreendente eficácia no incremento da renda das famílias rurais. Na era dos mercados globalizados vocês terão que competir com os agricultores mais eficientes do mundo e, por esta razão, necessitam tornar-se cada vez mais eficientes e profissionalizados. É evidente que será difícil atingir tais objetivos de forma abrupta. Por esta razão lhes sugiro que...

 

2) Iniciem a "eficientização" produtiva com tecnologias de custo mínimo. Com a finalidade de que todos os agricultores, especialmente os mais pobres, possam tornar-se mais eficientes, a introdução de novas tecnologias deverá ser realizada de forma gradual, começando com as de menor custo e fácil adoção. Depois que estas sejam corretamente adotadas, vocês aumentarão os rendimentos por hectare e por animal. Através desta “gradualidade” obterão/extrairão das suas propriedades - e não do banco - o dinheiro necessário para adquirir os insumos de maior custo que necessitarão utilizar nas etapas mais avançadas de tecnificação. A propósito, fujam do crédito rural, pois ele é muito conveniente para os bancos, para os fabricantes de maquinaria, caminhonetes 4x4 e insumos modernos, porém altamente perigoso para a economia dos produtores rurais.

 

3) Não plantem mais hectares que aqueles que podem cultivar com tecnologias que permitam obter altos rendimentos. Como regra geral é mais conveniente cultivar, de maneira correta, um hectare de milho e colher nele 8 toneladas que cultivar incorretamente dois hectares e colher 4 toneladas em cada um deles. Não criem mais vacas que aquelas que podem “desparasitar” e alimentar adequadamente, durante todo o ano, a fim de que elas possam produzir mais leite e mais bezerros. É melhor ter uma vaca geneticamente melhorada, “desparasitada”, sadia e bem alimentada que produza 20 litros de leite por dia que ter 5 vacas famintas, com mastite e cheias de endo e ectoparasitas produzindo 4 litros cada uma.

 

4) Fujam das monoculturas e diversifiquem a produção agrícola e pecuária para tornarem-se menos vulneráveis aos riscos de clima, mercado, pragas e doenças. Idem para gerar alimentos diversificados (para a família e para os animais) durante todo o ano. Quem obtém apenas uma ou duas colheitas ao ano, evidentemente será muito mais dependente do crédito rural. Então, em vez de endividar-se desnecessariamente e pagar juros aos bancos realizem uma eficiente diversificação produtiva para que a propriedade gere renda mais abundante e mais frequente durante todo o ano. Os produtores de bovinos, cabras e ovelhas deverão, em primeiríssimo lugar, melhorar a produtividade e a qualidade das pastagens para tornarem-se menos dependentes do uso de rações balanceadas que normalmente são muito caras. Os produtores de gado leiteiro, suínos e aves deverão produzir nas suas propriedades os ingredientes (milho ou sorgo, soja, alfafa, grãos de girassol, mandioca ou batata doce, etc.) e transformá-los em rações balanceadas de baixíssimo custo. Se vocês já produzem estes ingredientes jamais os vendam ao primeiro intermediário que apareça na propriedade; transformem esses ingredientes em rações e as “vendam” às suas próprias vacas leiteiras, suínos e aves. Estes animais ao receberem uma alimentação de boa qualidade e baixo custo retribuirão a gentileza devolvendo-lhes leite, carne e ovos de melhor qualidade, em maior quantidade e produzidos com custos unitários mais baixos.

 

5) Abandonem, de uma vez por todas, o individualismo que está destruindo-os economicamente e juntem-se com seus vizinhos confiáveis para adquirir os insumos e para comercializar as colheitas com menor intermediação. A propósito, observem como vocês mesmos, sem querer, atuam contra seus próprios interesses econômicos:

- Vocês pagam preços desnecessariamente altos pelos insumos porque os adquirem de forma individual, em pequenas quantidades, do último elo de uma longa cadeia de intermediação e com alto valor agregado. As rações balanceadas que vocês compram do último intermediário, provavelmente são fabricadas por uma grande empresa multinacional, com os ingredientes que saíram das suas propriedades;

- Mas vocês mesmos quando comercializam suas colheitas fazem exatamente o contrário e, por esta razão, recebem valores desnecessariamente baixos. Porque as vendem ao primeiro elo da cadeia de intermediação, as comercializam no atacado e sem nenhum valor agregado. O individualismo tornou-os extremamente frágeis e os conduziu à seguinte humilhação: quando compram os insumos vocês perguntam “quanto custa?”. Mas quando se convertem em vendedores de suas colheitas continuam perguntando “quanto me pagam?”. Isto significa, que por causa desse nefasto individualismo, vocês nunca são formadores de preços. Observem que dentro das cadeias agroalimentares vocês são os principais geradores das riquezas, são os que mais trabalham e os que correm os maiores riscos do agronegócio, mas cometem a ingenuidade e o grave erro de não apropriar-se destas riquezas.

 

6) Igualmente juntem-se com seus vizinhos para adquirir e utilizar de maneira conjunta as máquinas e implementos de alto custo, que economicamente não se justifica possuí-los de forma individual. Muitíssimos pequenos agricultores se endividam para adquirir máquinas de forma individual e as utilizam durante 15 dias ao ano, deixando-as ociosas os outros 350 dias. A título de exemplo, é preferível que um grupo de 10 pequenos produtores possua para uso comum um bom trator, uma boa semeadora, uma boa colheitadeira e um bom pulverizador. Infelizmente isto não ocorre porque cada agricultor insiste em possuir maquinaria individual e exclusiva. Em muitíssimos casos o dinheiro que vocês gastaram para possuir maquinaria individual foi o dinheiro que, posteriormente, lhes faltou para comprar os insumos que são muito mais imprescindíveis para aumentar a produtividade na agricultura e na pecuária (sementes melhoradas, fertilizantes, inoculantes, pesticidas, melhoramento das pastagens, conservação de forragens para os períodos de escassez, sêmen de melhor qualidade, vermífugos, sais minerais, etc). Vocês necessitam organizar-se/solidarizar-se para defender os seus interesses econômicos e não os da Massey Ferguson, New Holland, CASE, Valtra ou John Deere.

 

Em resumo, a gradual e correta adoção destas seis medidas é o caminho realista, viável e eficaz para aumentar os rendimentos por hectare e por animal e para reduzir drasticamente os custos por kg produzido. Quem conseguir esta redução nos custos se verá menos afetado, mesmo que os preços de venda de suas colheitas sejam muito baixos. Para o caso dos agricultores muito pequenos e pobres, esta gradualidade tecnológica (de menos a mais, do simples ao complexo, do barato ao caro), é a única alternativa possível para "eficientizar-se" e consequentemente aumentar, passo a passo, a produção e melhorar a renda familiar.

 

Estas práticas, "eficientizadoras" da produção propriamente dita e "redutoras" de seus custos, são cada vez mais imprescindíveis para sobreviver economicamente na agricultura e na pecuária. No entanto, na era dos mercados globalizados elas são ainda insuficientes. Para conseguir um incremento significativo na renda familiar, será necessário que vocês obtenham melhores preços na comercialização de seus excedentes, e isto, por sua vez, poderá ser concretizado através da adoção das próximas quatro medidas.

 

7) Realizem, também de forma gradual, a reconversão produtiva substituindo os produtos/espécies que consomem os pobres por outros que são consumidos pelos ricos. É muito difícil que um agricultor com 5 ou 10 hectares de terra produzindo (para o mercado) milho, mandioca, batata, batata doce, abóbora, feijão ou arroz, possa sobreviver economicamente na agricultura. Estes produtos de baixa densidade econômica que são consumidos principalmente pelos pobres deverão ser substituídos, de forma prudente e gradual, por outros produtos que são consumidos pelos ricos, porque eles rendem muito mais renda por hectare, como por exemplo: alcachofras, aspargos, brócolis, tomates cereja, cogumelos, melões e melancias, mangas, abacates, graviola, morango, atemóia, fruta do conde, romã, abacaxi, hortaliças/ovos/frangos orgânicos, ovos de codorna, leitões para a época de festas, mel de abelha, flores, plantas ornamentais, mudas de frutíferas, etc.

 

8) Não vendam a produção sem melhorar sua apresentação e aparência. Vocês mesmos poderão incorporar valor aos seus produtos primários, começando por aquelas medidas que, devido a sua facilidade de execução e baixo custo, podem ser realizadas pelos seus próprios familiares, como por exemplo: limpar, classificar, fracionar e empacotar em sacos plásticos grãos de feijão, ervilhas ou lentilhas; lavar raízes e tubérculos, classificá-los por tamanho, aparência e fracioná-los em pequenas quantidades, colocar alface ou brócolis em bandejas individuais de isopor e cobri-las com películas transparentes. Ou seja, incorporar vocês mesmos valor às suas colheitas em vez de continuar delegando e "presenteando" a etapa mais rentável do agronegócio às agroindústrias ou às grandes cadeias de supermercados como o Wall Mart e o Carrefour.

 

9) Também de forma gradual, podem eliminar alguns elos de intermediação. Se atualmente vendem ao primeiro elo, na próxima vez formem um grupo e comercializem com o segundo elo... e assim sucessivamente buscando aproximar-se cada vez mais dos consumidores finais.

 

10) No entanto, atenção: antes de agregar valor às colheitas e melhorar sua comercialização não se esqueçam de produzi-las com menores custos e com melhor qualidade. A incorporação de valor agregado e uma melhor comercialização não poderão fazer milagres. As nove medidas “eficientizadoras” recém sugeridas produzirão os efeitos esperados se vocês melhorarem a qualidade de suas matérias primas e se reduzirem seus custos por kg produzido. Será muito difícil, para não dizer impossível, que um leite de má qualidade (sujo, com baixa porcentagem de proteína e gordura, com alta contagem de células somáticas e com resíduos de antibióticos) e produzido com alto custo por litro, possa ser transformado em queijo, manteiga ou iogurte de excelente qualidade e chegar aos mercados com preços competitivos.

 

Às pessoas que, depois de analisar criticamente esta mensagem, continuarem opinando que esta proposta não é viável e/ou eficaz para o incremento da renda familiar, sugiro que leiam os textos gratuitos que estão disponíveis nas páginas web http://www.polanlacki.com.br e http://www.polanlacki.com.br/agroesp

 

Neste último site está alojado "O livro dos pobres rurais". Se vocês não têm acesso à Internet peçam a um extensionista, vizinho, amigo ou parente que lhes imprima alguns destes textos. Depois de analisar criticamente as suas recomendações provavelmente ficarão surpreendidos com os melhoramentos que vocês mesmos podem realizar, com a única condição que apliquem de maneira correta as medidas "eficientizadoras" descritas nestes textos. Críticas a esta mensagem serão bem vindas através dos e-mails: Polan.Lacki@onda.com.br e Polan.Lacki@uol.com.br