Os agricultores e suas novas prioridades: exigir uma educação útil, profissionalizar-se e abandonar o individualismo

Polan Lacki

PolanLacki@terra.com.br


Para iniciar, uma pergunta e um convite aos educadores rurais e aos agricultores


Aos educadores: Se na agricultura brasileira e latino-americana temos tão extraordinárias potencialidades para produzir riquezas, em muitas regiões durante os 365 dias do ano, por que temos tantos agricultores tão pobres e por que eles mesmos não conseguem superar sua pobreza? Uma resposta que, devido a sua extraordinária importância, não podemos continuar ignorando é a seguinte: porque ninguém lhes ensinou, concreta e objetivamente, o quê e como devem fazer para gerar mais riquezas e ingressos familiares. Então, se a principal "problemática" é o não saber e o não saber fazer, a principal "solucionática" tem que consistir em proporcionar aos pobres rurais o saber e o saber fazer para que possam ser mais eficientes e mais produtivos. Partindo desta premissa, são os educadores rurais e suas respectivas instituições que devem assumir este desafio de melhorar, de maneira muito significativa, a qualidade e a funcionalidade do nosso debilitado sistema público de educação rural, o formal e o não formal nos três níveis. Entre outras razões, porque os educadores rurais simplesmente não têm a quem delegar esta nobre tarefa. Isto significa que se eles não o fizerem ninguém o fará e seguiremos sendo pobres e subdesenvolvidos rurais; por mais terra, maquinaria, irrigação, créditos, refinanciamentos e perdão de dívidas e subsídios que os governos proporcionem aos habitantes do campo.


Aos agricultores: A Monsanto com a Cargill e a Nestlé com a Fonterra da Nova Zelândia (que é a maior empresa exportadora mundial de produtos lácteos) tiveram que constituir alianças estratégicas para poder fortalecer-se e competir nos mercados globalizados. Algo similar estão fazendo os gigantes econômicos, tais como: os bancos, as siderúrgicas, os fabricantes de veículos e maquinaria agrícola, as indústrias farmacêuticas, as empresas produtoras de fertilizantes, pesticidas e sementes híbridas ou geneticamente modificadas etc.). Se estas gigantescas corporações multinacionais necessitam unir-se para melhorar sua competitividade, como poderão sobreviver economicamente os minúsculos, dispersos e frágeis agricultores, se insistem em seu ancestral individualismo e se recusam a praticar o cooperativismo e o associativismo entre eles?


Nos países da América Latina temos crescentes evidências de que a principal causa do fracasso econômico da maioria dos produtores rurais reside nas ineficiências que eles mesmos e/ou seus empregados, involuntariamente e até sem querer, cometem nas distintas etapas do agronegócio. E, como regra geral, eles continuam cometendo-as principalmente devido à insuficiência, inadequação e obsolescência dos conhecimentos e competências que possuem. Basta visitar as zonas rurais de qualquer país da América Latina para constatar que muitíssimos produtores rurais estão empobrecidos e endividados, não necessariamente porque não tenham acesso a mais terra, mais maquinaria ou animais de produção, e sim porque sua própria mão de obra, sua terra e seus animais têm baixíssima produtividade ou rendimento. E isto ocorre fundamentalmente porque nossas instituições educativas rurais não lhes ensinaram como aplicar, de maneira correta, medidas "eficientizadoras" para aumentar os rendimentos por hectare e por animal, reduzir os custos por quilo produzido, melhorar a qualidade das suas colheitas, reduzir as perdas durante e depois da colheita (físicas e de qualidade) e obter melhores preços na venda de seus excedentes ao incorporar-lhes valor e ao comercializá-los com menor intermediação.


Premiar as ineficiências com subsídios ou eliminá-las com conhecimentos?

Consequentemente estas ineficiências não necessitam e não devem ser compensadas, ano após ano através de subsídios; elas devem ser evitadas, corrigidas e/ou eliminadas proporcionando aos agricultores uma educação útil e funcional que esteja clara e explicitamente orientada a que sejam mais eficientes, mais produtivos, mais empreendedores, mais profissionalizados e mais cooperativos com seus vizinhos. Neste último aspecto os agricultores terão que substituir o individualismo e praticar a solidariedade entre eles. Muito especialmente, para facilitar a solução daqueles problemas de interesse comum que não lhes convém solucionar de forma individual (compra de insumos, produção comunitária de rações balanceadas, formação de grupos de inseminação artificial, aquisição e uso de maquinaria em conjunto, incorporação comunitária de valor e comercialização de suas colheitas, etc.). Por todas estas razões é o sistema de educação rural quem deve corrigir suas evidentes debilidades, disfuncionalidades e ineficiências na formação e capacitação dos recursos humanos que intervém no processo de desenvolvimento agrícola e rural. Porque, sem sombra de dúvida, são estas falências do sistema educativo as principais causadoras dos fracassos econômicos dos agricultores e da pobreza imperante nas zonas rurais.


Governos populistas se perpetuam no poder enganando os agricultores


Na era da globalização dos mercados, não há tempo para continuar filosofando e teorizando. Nossos agricultores estão sendo obrigados a "eficientizar-se", como pré-requisito para poder competir com os produtores rurais mais eficientes do mundo. E esta "eficientização" não se consegue através de subsídios e outras medidas paternalistas que premiam os ineficientes em vez de adotar adequadas medidas educativas para torná-los mais eficientes. Por este motivo, no mundo contemporâneo, o êxito econômico dos nossos agricultores depende muito mais do seu eficiente desempenho técnico-produtivo, gerencial e comercial, que das improváveis e ineficazes decisões políticas de governos populistas. Continuar acreditando na utopia do paternalismo é uma ingenuidade que os produtores rurais necessitam abandonar imediatamente; entre outras razões porque na nossa América Latina, durante mais de 55 anos, esses mesmos programas assistencialistas demonstraram ser sinônimos de sucessivos fracassos e de gigantescos desperdícios de recursos públicos.


Devido a estes antecedentes, e sem perda de tempo, é imperativo que os produtores rurais se organizem, não para mendigar créditos e subsídios perpetuadores de dependências, e sim para exigir dos seus respectivos governos uma formação/capacitação muito mais eficiente e funcional que tenha os seguintes objetivos: (a) emancipar os produtores rurais dos efêmeros e excludentes subsídios governamentais e (b) torná-los menos vulneráveis à ação expropriatória dos outros integrantes das cadeias agroalimentares (banqueiros e usurário, fabricantes e vendedores de insumos e maquinaria, especuladores, transportadores, compradores, industrializadores e revendedores de suas colheitas, etc.) os quais atualmente se apropriam de um exagerado percentual das riquezas que os agricultores produzem em suas propriedades. É necessário reduzir os excessivamente numerosos elos de intermediação que se interpõem desde que os insumos agrícolas são fabricados até que os alimentos são adquiridos pelos consumidores nos supermercados.


Quem trabalha e se arrisca muitíssimo recebe 20%...... e os outros 80%


Em muitos casos os agricultores recebem apenas 20% dos preços que os consumidores finais pagam pelos alimentos, depois de que as agroindústrias ou os supermercados os fracionam e efetuam uma muito superficial "maquiagem" em suas colheitas; maquiagem que os próprios agricultores, de forma individual ou em grupos, poderiam e deveriam realizar em suas respectivas propriedades e comunidades. E não o fazem por falta de espírito associativo/cooperativo para realizar algumas das seguintes atividades: adquirir os insumos em conjunto, produzir as próprias rações balanceadas em vez de comprá-las das multinacionais, não endividar-se desnecessariamente na aquisição de maquinaria individual superdimensionada, incorporar valor agregado às colheitas e, finalmente, vendê-las em conjunto e com menor intermediação. Tudo isto com o objetivo de que os próprios agricultores (e não os agroindustriais e "supermercadistas") se apropriem de um percentual mais elevado e mais justo das riquezas que produzem em suas propriedades. Quando o fizerem, com certeza, não receberão apenas 20% das riquezas que extraem das suas propriedades.


Uma proposta construída de baixo para cima e de dentro para fora


Este diagnóstico e esta proposta educativa-associativa-emancipadora foram construídos a partir:

a) dos exemplos, positivos e negativos, que vi com os meus próprios olhos em milhares e milhares de propriedades, comunidades e mercados rurais, escolas fundamentais rurais, agências de extensão rural e faculdades de ciências agrárias em 22 estados do Brasil e em outros 18 países da América Latina, nos quais realizei minhas atividades profissionais. O fato de ter vivido e vivenciado estas realidades concretas, diretamente no terreno, me permitiu constatar que existe a seguinte e claríssima disfuncionalidade e contradição: entre o quê e como o nosso sistema de educação está ensinando aos extensionistas rurais, aos futuros professores das escolas fundamentais rurais, aos agricultores, aos seus empregados e às crianças das escolas fundamentais rurais e o quê e como eles deveriam aprender para poder desempenhar-se no meio rural, com a eficiência requerida pelos tempos modernos.

b) das contundentes e cada vez mais frequentes críticas ao nosso sistema educativo rural, que me enviam muitíssimos dos 422.320 interlocutores eletrônicos com os quais estou, permanentemente, intercambiando opiniões e informações sobre o "desencontro"/disfuncionalidade existente entre o que se ensina e o que deve ensinar-se para que os produtores rurais possam evitar/corrigir e/ou eliminar as ineficiências que ainda estão cometendo, nas distintas etapas do seu negócio agrícola e pecuário.


Basta de reformas educativas cosméticas e demagógicas


Em conseqüência do anteriormente descrito, se queremos enfrentar com seriedade, realismo e objetividade a erradicação da pobreza e do subdesenvolvimento rural, devemos começar por uma imediata, radical e profunda (não cosmética como temos até o presente) reforma nos conteúdos curriculares, nos métodos pedagógicos e na profissionalização dos diretores e supervisores das seguintes instituições educativas: faculdades de educação ou pedagogia, faculdades de ciências agrárias, escolas fundamentais rurais e serviços de extensão rural. Nelas residem as causas mais profundas dos problemas, angustias e sofrimentos dos habitantes rurais e nelas deverão ser adotadas as medidas corretivas para adequá-las às verdadeiras necessidades dos habitantes do campo.


Os próprios educadores podem ser os "eficientizadores" das suas respectivas instituições


E para concluir: os educadores rurais que desejem obter textos gratuitos que propõem as medidas “eficientizadoras” que eles mesmos poderiam adotar para melhorar seu próprio desempenho docente e, consequentemente, a funcionalidade das suas respectivas instituições educativas, poderão baixá-los diretamente das páginas: www.polanlacki.com.br e www.polanlacki.com.br/agrobr


As medidas “eficientizadoras” descritas nos textos recém oferecidos têm a seguinte peculiaridade: elas são intencionalmente simplificadas, de baixo custo e de fácil implantação para que possam ser adotadas pelos próprios professores e extensionistas; em muitos casos sem necessitar de recursos adicionais além dos já disponíveis e sem depender de altas decisões políticas dos ministros ou secretários estaduais/municipais de educação, dos reitores das universidades, dos diretores das faculdades de ciências agrárias e dos diretores das escolas fundamentais rurais. A "descomplicação" destas medidas “eficientizadoras” têm o deliberado objetivo de estimular que os próprios educadores assumam um maior protagonismo no melhoramento das nossas instituições educativas ao demonstrar-lhes o muito que eles mesmos podem fazer em prol da melhoria da educação rural, formal e não formal. Críticas ao conteúdo do artigo serão bem-vindas através do e-mail PolanLacki@terra.com.br